Museus em transição respondem ao desafio digital

Tecnologias digitais apenas enchem os olhos dos visitantes de museus ou também estimulam o pensamento crítico?

Em muitos ambientes públicos o uso da tecnologia costuma gerar isolamento individual, já que, embora compartilhando do mesmo espaço físico, cada pessoa interage apenas com sua própria tela ou dispositivo. No mundo dos museus, no entanto, essa tendência nem sempre se confirma.
Mais e mais, museus do mundo todo lançam mão de recursos tecnológicos para estimular interação coletiva e engajamento dos visitantes com o conteúdo cultural que propõem. Eles encontram validação para incorporar as novas tecnologias em pesquisas que mostram que experiências interativas aumentam a retenção de conhecimento e a participação ativa dos seus frequentadores.

Nesse sentido, estudos de público realizados em instituições como o Museu do Amanhã (Rio de Janeiro) e o Victoria & Albert Museum (Londres) apontam maior envolvimento emocional e cognitivo quando os visitantes interagem com recursos digitais, em comparação a exposições estáticas, com grande efeito potencial de aprofundar sua experiência estética e formativa.
Na mostra <i>Regular Animals</i>, em cartaz na Neue Nationalgalerie de Berlim, por exemplo, cães-robôs com cabeças de personagens conhecidos do mundo tech circulam pelo espaço expositivo capturando imagens do ambiente e as reinterpretando com IA. Ocasionalmente, os robôs ejetam versões dessas imagens, que podem ser levadas pelos visitantes, propondo uma reflexão crítica sobre o papel das big techs e dos algoritmos na nossa visão de mundo.

Já no Museu de Ciência de Londres, pode-se simular experimentos e manipular modelos virtuais de fenômenos físicos e químicos, tornando conceitos complexos acessíveis e divertidos, especialmente para crianças.
De fato, escolas e universidades que levam alunos a museus relatam que a interatividade facilita a aprendizagem ativa, aproximando ciência e arte da vida cotidiana, o que é corroborado por levantamentos como o da European Network of Science Centres and Museums.
Pela mesma via, amplia-se o acesso de pessoas com deficiência através, por exemplo, de audioguias inteligentes, realidade aumentada para cegos etc., o que reforça o argumento de integração.

Críticos apontam, porém, o risco de superficialidade, ressaltando que o excesso de estímulos sensoriais sobrepostos ao contato com as obras originais, reduziria o tempo de contemplação delas, desviando o foco para o aparato tecnológico.
São inúmeros e muito diversos entre si os museus que transitam pela via híbrida e aqueles que conseguem integrar tecnologia sem substituir o acervo físico tendem a obter melhores resultados. O recurso digital, portanto, deve ser complementar, não protagonista, seu uso deve ser consciente e equilibrado para não transformar a visita em mero espetáculo tecnológico. Como afirma Marcelo Mattos Araujo, diretor de uma proeminente instituição cultural de São Paulo, “se [as tecnologias digitais] podem ajudar a compreender e visualizar determinadas obras, não podem substituir a obra original, porque esta guarda uma aura, um valor, uma emoção que só estes objetos originais possuem.”

Cecilia Soares Esparta

Foto ilustrativa da exposição Beeple. Regular Animals, da Neue Nationalgalerie (Berlim), acessível pelo site https://www.smb.museum/en/exhibitions/detail/beeple-regular-animals/

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